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Conto: Eu que Tanto Amo.

Em um dia de novembro, após uma longa chuva, decidi caminhar em volta de um parque próximo a minha casa. Depois de muitos passos caminhados pelo chão lamacento, decidi adentrar o parque e chegar ao lago. Escurecia quando notei uma figura destoante do lago. Temendo espantos noturnos me aproximei vagarosamente. Não muito longe avistei a figura  de uma moça, estava tão assustadora que não reconheci o que com ela se passava.
A moça estava transfigurada, coberta por lama e lágrimas, as mãos tremiam, os lábios molhados.
Me aproximei, me abaixei e perguntei o que lhe havia acontecido, sua voz me pareceu um grunhido.
Perguntei novamente, ela respondeu, me arrependi logo em seguida...
A moça se dilacerava, era uma amante,
e como todo ser que um dia ama, um dia sofre.
Ela sofria.
A moça falou longamente, durante todo o tempo em que estive ali, não olhou em meus olhos.
Sua história me pareceu apenas mais uma das que são narradas na literatura.
A história de um amor não correspondido.
Enquanto ela falava, sua dor se fazia visível em sua face.
Ao longo da vida, ela não tivera muitos amores, mas aos que teve, entregou-se por inteiro.
Depois de muitas barreiras travadas consigo, a moça encheu-se de coragem e ao ser amado decidiu declarar o seu amor.
As barreiras que ela narrou, surpreenderam-me, pois eu também contra às mesmas barreiras lutava.
A moça vivia amarrada aos seus medos
e foi tragada por longos anos por suas amarras, que ganharam vida
e noite e dia a torturavam. Depois de longos anos, refém de suas amarras, a moça as rompeu para ir ao encontro de um ser amado.
Enquanto narrava sua história a moça dizia-se e sentia-se derrotada, enganada pelo destino, amaldiçoada pela eternidade, condenada à solidão, ela dizia.
Após o fatídico encontro com o ser amado e após o desencontro de vidas. Seguiram caminhos distintos, que ela dizia não saber se se cruzariam novamente. Porém, decididamente à dor ela se entregava. Há tempos a dor já a acompanhava. Ela dizia que nada mais lhe restava. Então tudo à dor ela daria, pois nada à ela impediria. Foi quando percebi que contra a própria vida a moça atentaria.
Lhe dirigi minhas palavras e disse:
Não cabe a tu desistir, se tiveres forças para sair, por quê desperdiçar tuas oportunidades? Para quê se entregar a dor, se a mesma te impulsionou a viver?
Não faças tal, eu te peço.
Usas teus braços e lança fora a dor que quer te amarrar novamente.
Não percebes, tuas amarras que vida ganharam, novamente te querem dominar.
Dentro de mim, eu me admirava das palavras que eu dizia.
Na breve pausa, em que fôlego busquei para retornar minha fala, ela se foi.
Ainda escuto até o dia de hoje suas palavras antes de partir:
"Eu que tanto amo, não sou digna do teu alento."
Certa manhã, enquanto pelo mesmo parque eu caminhava, escutei algumas vozes que comentavam sobre uma certa moça que tantos anos quantos se pode contar,
naquele mesmo parque, suicidara-se por muito amar.

Sara.

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