Pular para o conteúdo principal

A Máscara de Ferro do meu Quintal.

Quando construí minha máscara (com ferro, pois era um material abundante em meu quintal)
a moldei em brasa, no formato do meu rosto.
Enquanto eu crescia, reformulações eu fazia,
até que chegou o tempo em que eu não cresceria mais.
Era a velhice, dali em diante o inverso aconteceria.
Ninguém jamais viu meu rosto, na frente de outras pessoas
eu não tirava a máscara.
A fabriquei para ser forte, parecer forte, me fazer forte.
Porém, com o passar dos anos fui mudando, por dentro e por fora,
sem que eu percebesse,
minha máscara de criança transformou meu rosto, minha pessoa, meu ser.
As brechas que eu não consegui tapar com o ferro, exigiam de mim,
mais aplicação na remodelação de minha máscara.
Assim, meu rosto foi secando, comprimindo-se, adequando-se a máscara.
Fui empalidecendo,
manchas arroxeadas se formaram abaixo dos meus olhos.
Me tornei um espectro de pessoa e não percebi,
a cada fez que eu emagrecia, uma nova reformulação na máscara eu fazia,
até o dia em que o ferro se fundiu a carne e aos ossos.
E já não se pode distinguir o que era eu e o que era máscara.
Quando me dei conta, já estava a beira da morte, e em
uma completa carcaça eu vivia.
Chovia quando tudo aconteceu,
eu caí e onde estava permaneci,
o ferro penetrou meu coração.
Só me sobrou um relato,
que escrevi momentos antes da chuva.

Sara.


Imagem por
Osman Andrei

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deixa

Deixa vir esse cabelo no rosto
essas lágrimas guardadas
essas palavras não ditas
que te entopem.

Deixa,
Deixa nascer um espaço entre n-ó-s.
para que alguém possa respirar
depois de uma crise de choro.

Deixa,
Deixa o tempo andar devagar
e te olhar
para ver como é que você está se fazendo
se moldando, se construindo.

Deixa,
Deixa o silêncio surgir sorrateiro
trazendo a tona o barulho
que antes estava aqui

Deixa,
Deixa a sua vontade dizer firme que te incomoda o desejo
O desejo de um outro alguém
Deixa
Deixa a gente ganhar espaço,
alçar voos distantes.

Deixa,
Deixa eu pousar um instante
para recuperar o fôlego
Depois do esforço
de tentar te fazer apaixonar...

Deixa,
Deixa o espaço se fazer entre nós
e quando ele tiver se instalado
a gente olha.

Sara.

Soberana.

A gota que ferve na palma da mão.
O abraço apertado dançante.
O beijo, o cheiro
o sorriso gigante.
Quem é você
que chegou nesse instante?

Os olhos castanhos-verdes me fitam
e pedem de mim um apreço.
Eu reluto, mas me entrego
pois permaneço.

O laço que prende
a obrigação que chama
o meio sorriso de canto presente.

Um nós abrupto,
ininterrupto
desconcertante

Houve um atropelamento,
mas estou gostando deste asfalto.
Eu ganhei um beijo no asfalto*

Eu tenho uma mala comigo
Ela é pesada
Nada impede que não a machuque.

Confusão é uma palavra presente.
Desconcerto, cuidado, carinho,
preocupação.
Mas e se?
Se ela voltar?
Se ele voltar?
Você machucará?
Não há respostas prontas
para futuros prováveis.
Mas pode haver?
O que fazer?

Acalma, apressa, aperta o passo.
Ela acalma a minha pressa?*
Ela apressa a minha calma.

Sara.

*Livro: "O Beijo no Asfalto", Nelson Rodrigues.
*Música: "Provável Canção de Amor para Estimada Natália", Banda Mulamba.

Contraponto.

Foi quando um contraponto aconteceu...           Meu andar altivo encontrou seu andar ensimesmado Meu olhar furtivo encontrou seu olhar doce. Minhas longas conversas encontraram suas perguntas profundas e certeiras. Foi quando eu vi a idade da minha alma Ao me deparar com a idade da sua. Foi nas nossas conversas inteligentes que vi os nossos interesses em comum. Foi quando você segurou minha mão, que eu percebi o tamanho do meu passo. Assim que você se mostrou confusa eu vi nascer a certeza da impermanência entre nós. Nós somos um contraponto, Que ora se encontra, ora se distancia. Mas seu sorriso terno E meu olhar amoroso se misturam Quando a gente se olha no começo do dia. Minha alta exposição encontrou seu mistério. Minha mão encontrou seu cabelo E sua boca a minha orelha E foi amor à primeira vista entre eles. Mas também foi onde você não me prometeu a eternidade E eu aceitei a transitoriedade
de nós. Foi quando aconteceu A minha intensidade encontrou o seu breu E se dissipou, s…