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Coisas de Pequeno.

Em um lugar distante, a muitos anos-luz de onde você está,
existiu alguém que não enxergava o próprio rosto.
Quando pequeno, assim que começou a se diferenciar do mundo
percebeu que em seu reflexo seu rosto não passava de um borrão, perturbou-se.
Sua primeira reação foi o choro, a incompreensão.
Não demorou para que alguém o ouvisse, quando pode falar
lhe disseram que passaria, que isto era coisa de pequeno.
Não contente, chorou ainda mais.
Passaram-se os anos e seu rosto indefinido continuava,
passou a perguntar aos outros como era o seu rosto.
Muitos não compreendiam, mas descreviam (olhar impassível, formato quadrado ou retangular, olhos escuros, pele amarelada...)
Parecia terráqueo diziam,
mas nada disso lhe era compreensível, mesmo com todas as peças seu mosaico não formava um rosto.
Cresceu em estatura, posto, conhecimento, mas ainda não sabia como era o próprio rosto.
Procurou um "especialista", ele lhe disse que era coisa de pequeno,
mas pequeno já não era.
Permitiu-se uma fuga e a busca pelo rosto, quis fazer uma máscara, mas não via seus olhos.
Fugiu do reflexo, odiou-se por um tempo.
Aceitou-se e prosseguiu na sua existência,
desiludido.
Certa noite, quando contemplava uma estrela ao sul de seu planeta,
aproximou-se uma dama e lhe disse poder encontrar seu rosto.
Sentiu medo de segui-la, pois ela disse que haveria um preço a ser a pago.
Somente uma chance lhe foi dada, aceitou.
Era noite, em uma ruela escura, ao fim de um beco encontrava-se um rosto
descoberto, adormecido.
Alguém estava de pé, outro alguém estava deitado.
Naquele silêncio, um despertou, mas já se encontrava só.

Sara.

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