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Na sombra da Jabuticabeira.

A questão era muito simples:
Eu havia morrido.
É difícil descrever como me sinto, pois não sinto.
Não há espaço, eu não enxergo, eu não sinto meu corpo,
acho que não tenho um, não consigo tocar.
Eu sou uma consciência solta, livre.
Sei que existo, pois penso.
Será que isto é um sonho?
Tudo era um vão
até alguém chegar e falar comigo.
Chamarei de alguém, pois não sei o que ou quem era.
Ele disse que poderia realizar um desejo meu.
Qualquer coisa que eu quisesse.
Por que perguntar isso para um ser que não tem memórias?
Eu não sei porque desejei jabuticabas e um gato,
mas desejei.
Ele disse que eu passaria a eternidade assim.
E permaneci
Não havia dia ou noite,
mas o espaço existia,
eu via uma jabuticabeira carregada com muitas jabuticabas
e passava os dias a alisar o gato e comê-las.
Esperava as verdes amadurecerem.
Se houvesse dia ele passaria lento e frescamente.
Era agradável
até que brotaram plantas desconhecidas ao redor da árvore.
E tive que lidar com o desequilíbrio do meu ambiente
programado.
Eram dúvidas que brotavam e eu tive que lidar com elas.
Quem eu sou?
o que eu quero?
Será que sou real?
O sabor existe?
Eu tenho um corpo?
Parecia infindável
o rio de perguntas.
E ninguém veio me responder.
Naquele solitário cenário fui obrigado a fabricar respostas.
As épocas de jabuticabas iam e viam, floresciam, brotavam, caiam.
E eu lá a me questionar.
Foi quando a jabuticabeira florescia que fechei os olhos.
Me obriguei a mantê-los fechados, pois só assim na escuridão
eu não veria que ali havia tempo
e com o tempo eu não sabia lidar.
Aquele alguém jamais retornou,
eu ainda estou de olhos fechados,
logo o aroma das jabuticabas caídas me acordará
e tornarei a me questionar
na sombra da Jabuticabeira.

Sara.













Foto por MINAS GERANDO FOTUS
http://minasgerando.blogspot.com.br/2010_12_01_archive.html

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