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Mostrando postagens de Maio, 2016

Passado.

Houve um tempo
em que meu rosto estampava um sorriso mecânico.
Um olhar perdido
mergulhado em aflições
e perguntas,
muitas coisas me cercavam,
me cerceavam,
mas somente eu me impedia.

Um disfarce tão grande para alguém que não queria ser eu.
Uma imagem calcada em fantasias e ordens de outros,
aos poucos fui me desfazendo
até perder o fio da meada e já não saber quem sou.
Foi ai que me refiz e estou o que estou.
Sou processo,
tão ameno
lento,
passo a passo.

Há tempos que me questiono
se esse tempo passou.
Ainda sinto meus pés presos,
meu pensamento longe,
minha mão tateando no escuro.

Se há espaço para o lamento
também deve haver para a esperança.
mas existem momentos
que me enxergo de novo
encarcerada
deitada só
reflito.

O céu parece infinito
e sinto medo,
pois a imensidão sempre me assusta.
Ainda que de resto
sinto solto
dentre os meus sentimentos
um desgosto
a apertar meu corpo
exigindo de mim
um rosto
que não expresse
dor.

Sara.


Fixidez

Transitando pela rua,
Procuro minha sombra.
Sem jamais saber
Que eu sou o corpo de um fantasma.
Olho para a lua, mas não encontro descanso
Pois estou nadando muito raso
A água fria que me toca
Não gela minha alma
Mas faz querer entregar meu ser ao mundo.
Meus pensamentos jorram de mim
De uma forma que não consigo conter.
Caberá em mim do tamanho do mundo
Um ser tão profundo
Que não merece viver?
Pressuposições me atropelam
Esquecendo quem sou
Admito querer ruir
Mas não sabendo onde estou
Permanecer é o que me resta.
Assopra de mim
Todas as dores que sinto por existir.
Cabe no meu mundinho de palavras todas as coisas que pinto?
Todas as lembranças que amasso
Todos os sentimentos dos quais fujo.
Se o frio que sinto no fundo
Servisse para esfriar o mundo
Grande sorte eu teria
de me desfazer
Das minhas covardias.
A falta gera delírios sobre a humanidade.


Sara.

Preâmbulos.

Como construir uma pessoa?
Como costurar nela todas as lembranças
para que não se percam?
Fazendo dela um tecido
talvez fique mais fácil
visualizar seus desbotamentos,
suas partes fracas que tendem a descosturar.
Talvez simplifique o processo de limpa-la
de tirar dela
qualquer sujeira
impregnada.

Como entreter um poeta?
Como sugar dele
os fios que se tornarão poesia?
E para que?

Como gerir uma ideia e deitar sobre ela
expectativas
para findar sonhos
e alcançar objetivos?
Como crescer além dos muros
da imaginação?
Para quê crescer além deles?

Como descrever uma pessoa
sem conhecer seus lugares?
Sem encontrar seus vestígios
onde certamente ela caminhou.
Como deixar ir
Aquilo que te faz sorrir
Sem deixar o sorriso vazio?

Quem dera eu pudesse levar embora
esse rio que de mim jorra
e deixar de uma fez só
cair para longe de mim
meus questionamentos.

Talvez assim eu chegasse a alguma resposta.

Sara.

Eu, tão pequeno pássaro.

Como se eu estivesse em uma grande gaiola.
E que apenas por estar nela,
eu não era capaz de me atentar as grades.
Como poderei eu, tão pequeno pássaro,
esbarrar em uma grade e rompê-la?
Mesmo assim eu, tão pequeno pássaro,
sinto as grades sob meus pés.
E percebo paulatinamente
que ela se constitui de mim.
Minhas vontades, desejos,
medos e aflições
são as quatro barras que me prendem,
me encarceram no lar provisório
do meu mundo de fantasias.
Porém, de tão atento que sou
percebo uma observadora,
fora das grades
seus olhos me tocam.
E fazem eu temer de mim
que as barras se abram.
Ainda assim eu, tão pequeno pássaro,
permito
que meus olhos também a toquem
e foi assim que se deu o contato.
E da "voz da vida ouvi dizer
que os braços sentem 
e os olhos veem"
para além da escuridão.
Tão singelo encontro precioso
fez com que eu, tão pequeno pássaro,
abrisse as asas
e ensaiasse um voo.

Sara.


João de Barro, autor da foto: Sandro Barata
Fonte: http://www.unb.br/passaros/passaros.htm


Grito Ecoado

Diga me com quem tu andas
que te direi quem és.

Não se culpe pela ausência,
mas se responsabilize
a sua falta levou a outra ausência
como abismos que se somam
formando distâncias maiores.

Só restou um buraco
um buraco negro
que vaga pelo espaço a minha volta
sugando tudo
levando para o vazio
crescendo com a energia
de cada matéria tragada.

suportando o vazio
sigo levando sua ausência
que jamais poderá ser preenchida.

Diga me onde tu andas
que te seguirei com meus pés.

Jornada ampliada
acrescida de sombras
que se fortalecem com a ausência,
um caminho construído pela falta de nós.

Nesses elos se formam relações,
ligamentos que se encadeiam formando uma rede
de ausências e pontos de mudança,
mas ao longo do trajeto
certos vazios
são longos e doídos.

Diga me como tu andas
e saberei o que te forma
o que te preenche
o que te faz crescer
como um buraco
que se nutrido
se renova na caminhada.


Um grito ecoado
de lugares distantes
ressoa no céu noturno.


Sara.
em homenagem a Pietra,
pela sua part…