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Autorretrato.

Era tarde, nós corríamos, havia uma árvore, muitas folhas caídas ao chão. Era outono. Pique-pega era a brincadeira, éramos três. Eu, Ela e Ele. Eu decidi subir na árvore e de lá os vi, um correndo atrás do outro. Ela com seu vestido branco rodado, sem mangas. Ele com suas bermudas azuis. De lá de cima, fui me entristecendo, talvez eu os amasse demais, mas naquela tarde algo mudaria em mim. Eu vi minha diferença e a reneguei no mesmo instante. Mas quem era eu? Porque eu tinha um corpo como aquele? Porque vê-la sorrir com ele me fazia triste? Porque eu o invejava tanto? Mas eu era criança e só sabia que algo me incomodava. Eu desci da árvore e me sentei, eles não vieram, eu ainda os observava e me perguntava porque eu me sentia tão distante deles, era mais do que diferença, era distância. Aquele anseio me sufocava, os olhares me sufocavam, as reclamações, as brigas, porque as crianças da escola me importunavam? O que eu tinha de errado? Eu não gostava do meu reflexo, na rua eu andava olhando para o chão, em casa eu me isolava no quarto, na escola eu me metia na biblioteca. O que tinha de tão sufocante na realidade para que eu fugisse para os livros? Eu existia, e tinha que ser o eu que outros queriam, mas o que eu queria? O que me deixava feliz? Como eu poderia saber se só vivia triste. Pelos cantos eu brincava, criava cidades, construía edifícios, eu criava mundos, pois o meu mundo não me bastava.
Nada era mais sufocante do que viver, e eu não sabia disso. Sufocando, engasgando, eu tossia a fim de expelir tudo para fora de mim. Um dia, uma roupa, gostei de vesti-la, me senti bem estando diferente. Na escola, as chacotas vieram, as brigas, as discussões até que ela me acusou, eu estava rompendo a realidade. Não a minha realidade, mas a deles. Eu não cabia onde vivia, mas eu nasci ali? Como isso era possível? Foi extenuante ter que ceder, joguei a roupa no fundo do armário. Eu não cabia na realidade.
Os anos corriam com o vento e o meu incômodo crescia numa bola negra que se arrastava pela lama e era formada por milhares de poemas, que eu escrevia para botar pra fora o incômodo.
Como eu ainda poderia existir? Se de mim só saem palavras tristes, é porque de tristeza eu me formo, eu me consumo, me transformo e vomito palavras vazias.
Eu cedi tanto e a tal ponto, que rompi com minha realidade. Eu desisti de existir. Fui me negando, me reduzindo, me anulando até que eu me rompi.
Foi sangue, vísceras e minhas entranhas que se viu passar pela avenida, um desfile humano de alguém dilacerado. Quisera eu como o moribundo de Nelson Rodrigues, receber o Beijo no Asfalto, mas não me sobrou voz, nem cor, rosto, eu rompia assim minha vida, tênue como uma linha de costura que se rompeu, eu estava por um fio.
Era um desejo que me consumia. Eu sonhava com meu fim, mesmo assim nada me acontecia. Podia estar em cisão o quanto fosse, que minha vida seguiu ladeira abaixo, mas seguia. Não foi uma surpresa quando pela manhã, na cama não me encontraram, nem nos jardins, muito menos na árvore que eu gostava. Certa manhã, o sol bateu na minha janela e eu havia partido levando o casaco que um dia eu havia socado no fundo do armário.

Sara.

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