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Sentidos.

Bonitas criaturas
escondem suas almas pelo avesso
Bonitas criaturas
vivem na cidade onde envelheço.

Saindo das minhas muitas ruínas
Eu sinto o enjoo mesclado ao medo
Saindo de mim eu sinto
que desfaleço.

Em todos os meus horizontes possíveis
existe alguém que caminha ao meu lado
Ando me perguntando se o que o vejo
não é minha sombra projetada sobre o chão que piso.

Das fantasias que crio poucas
expressam meu real desejo,
talvez porque ele não exista,
talvez porque eu não o mereço.

Se eu continuar caminhando
chegarei a algum lugar?
Sabe os versos que eu escrevo?
Tem alguém que nunca os lê.

O mundo parece a sombra de uma lona de circo
projetada no chão.
Eu pareço alguém que olha de fora
pois não pode pagar a entrada.

Se eu descer um pouco mais
poderei me amar um dia?
Mas e se eu me perder?
Quem lembrará do meu sorriso torto?
Sinto que a curva se aproxima novamente,
será que vou derrapar?
será que vou seguir?

Sara.

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Deixa

Deixa vir esse cabelo no rosto
essas lágrimas guardadas
essas palavras não ditas
que te entopem.

Deixa,
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para que alguém possa respirar
depois de uma crise de choro.

Deixa,
Deixa o tempo andar devagar
e te olhar
para ver como é que você está se fazendo
se moldando, se construindo.

Deixa,
Deixa o silêncio surgir sorrateiro
trazendo a tona o barulho
que antes estava aqui

Deixa,
Deixa a sua vontade dizer firme que te incomoda o desejo
O desejo de um outro alguém
Deixa
Deixa a gente ganhar espaço,
alçar voos distantes.

Deixa,
Deixa eu pousar um instante
para recuperar o fôlego
Depois do esforço
de tentar te fazer apaixonar...

Deixa,
Deixa o espaço se fazer entre nós
e quando ele tiver se instalado
a gente olha.

Sara.

Soberana.

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Um nós abrupto,
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Confusão é uma palavra presente.
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Se ela voltar?
Se ele voltar?
Você machucará?
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Mas pode haver?
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Ela apressa a minha calma.

Sara.

*Livro: "O Beijo no Asfalto", Nelson Rodrigues.
*Música: "Provável Canção de Amor para Estimada Natália", Banda Mulamba.

Tempo.

É tudo sobre você e eu.
Um ponto meu de tranquilidade.
Um sorriso de completas verdades
Pessoas marcadas
Encontros traçados
por redes invisíveis.
Nós parecemos uma nuvem suspensa da realidade.
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Você me pergunta.
Não importa.
Eu te respondo.
A realidade é construída
através de perspectivas.
Elas se somam
formam um mosaico
O qual chamamos realidade.
Nós somos reais,
pois somos um pedaço
de algo que se constrói
dia a dia, lado a lado*
À incerteza da vida
nós preenchemos com planos.
Você é um caminho sereno,
que eu gostaria de percorrer.
Mas não depende de mim
não depende de você,
escolher.
Mas àquele que a tudo governa
o instrumento do todo,
construtor de realidades
Que por nós é nomeado
Tempo.

Sara.

* Música "Dia a dia, Lado a Lado" - Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci. Imagem: Jardins, Instituto Central de Ciências, Universidade de Brasília.