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Galhos

Era como um sonho
que eu não conseguia distinguir da realidade.
Aquela estrutura imponente
emanava de mim
e eu era incapaz de subir.
Mesmo sabendo da impossibilidade da queda
era insuportável a ideia de escalar e pular dela.
O que me deixava sem chão?
De onde vinha esse medo?

Era como uma nuvem que tocava o chão
e eu não sabia como aquilo era possível,
mesmo estando diante de mim.

Foi como se chovesse ao contrário
a água brotava do chão em pequenas gotas e subia,
mesmo que eu quisesse saber,
 tudo era tão surreal,
que meu desejo de morte sucumbia ante aquela visão.

Foi como dizer adeus e continuar ali presente,
vendo os resultados da despedida emergirem.
Eu contava os minutos para acordar
estava acostumada demais com a realidade tórrida
que me cercava,
mas um desejo não espera por permissão.

Foi da estrutura que surgiram novos caminhos,
eram como galhos de metal
que avançavam pelo ar.
Era mais do que minha imaginação
era um instinto de sobrevivência.
E eu não tive medo de subir,
não dessa vez.
Ali eu era o centro
o eixo,
o fim.
E ao mesmo tempo um começo,
eu deveria conhecer os caminhos para descansar.
Era a única forma de acordar.
Como eu sabia?
Eu não sabia,
eu sentia.
Eram como coordenadas projetadas no ar,
eu não precisava pensar
era indo e vindo que me sentia inteira.

Sara.


fonte: mercado livre.

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(des)Amor.

Do desamor que habita em mim
ao desamor que habita o mundo

um laço profundo.
Parece onda do Mar
que repuxa
e faz você se sentir frágil, pequeno
incapaz de conter aquela força.
Ora é raiva, ora é medo
ora é dor.
Parece chuva que não molha
abraço que não dura
Parece aço que perfura
a terra
em busca de algo que não é dele.
Aqui
a raiva faz tremer
e o desejo de matar
sentimentos
aniquila a paciência.
Aqui jaz amor
entranhado
machucado
perdido
Entre o amor que habita em mim
e o amor que habita o mundo

um laço profundo
entrecortado
por outros sentimentos
Caóticos
como se recém saídos de Pandora
trôpegos
Fascinados pelos neons da violência
Onde há amor,
Há também desamor
E é dessa tensão
que nasce a Luta.

Sara.

*Dedicado à Marielle Franco.





Deixa

Deixa vir esse cabelo no rosto
essas lágrimas guardadas
essas palavras não ditas
que te entopem.

Deixa,
Deixa nascer um espaço entre n-ó-s.
para que alguém possa respirar
depois de uma crise de choro.

Deixa,
Deixa o tempo andar devagar
e te olhar
para ver como é que você está se fazendo
se moldando, se construindo.

Deixa,
Deixa o silêncio surgir sorrateiro
trazendo a tona o barulho
que antes estava aqui

Deixa,
Deixa a sua vontade dizer firme que te incomoda o desejo
O desejo de um outro alguém
Deixa
Deixa a gente ganhar espaço,
alçar voos distantes.

Deixa,
Deixa eu pousar um instante
para recuperar o fôlego
Depois do esforço
de tentar te fazer apaixonar...

Deixa,
Deixa o espaço se fazer entre nós
e quando ele tiver se instalado
a gente olha.

Sara.

Vazante.

Eu quero fazer uma cartografia desse sentimento.
É um rio vazante que se estende por mim.
É despretensioso,
mas sem tardar seu peso me joga ao chão.
Grandes suspiros me tomam
e eu lamento cair,
mais uma vez,
sobre esse sentimento.

Eu sinto demais
e de tanto sentir
eu canso.

É um tecido remendado que sempre rasga
e eu novamente costuro
porque é o único que tenho
não dá para me livrar desse sentimento.

Caída ao chão eu reflito
chegando às mesmas conclusões
eu minto
de que não permitirei que se repita.

É cruel se ver refém de um rio vazante,
que não se importa com as barragens,
ele sempre rompe.

Dedicada a divagar
eu aceito a velocidade dessa água
eu aceito a violência dessa água
eu aceito a existência dessa água
em uma tentativa tosca de deixa-la correr
de mim.

Sara.