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Alimento.

"Não podia comer tinha um fastio desolador,
cortado por desejos violentos de coisas salgadas"*

Eu tenho alimentado uma criatura,
dessas que não se deve falar,
nem tocar,
chegar perto
Dessas que a gente deve fingir que não existe
para que ela desapareça por completo.

Eu toquei essa criatura
a peguei no colo
me deitei com ela na cama.
Adormeci com ela no pensamento
até que chegou o momento em que percebi
o que eu tinha feito.

Eu alimentei uma criatura.
E sempre que algo é alimentado
ele cresce
e toma proporções que não conseguimos lidar.

Ela não podia ficar
e quando partiu me deixou um vazio desolador.
Fui tocada por uma criatura
e não tenho como retroceder.

Há que se dizer que a culpa é minha
que eu procurei essa criatura que não me contive
em vê-la ali tão perto e tão longe de mim.

Eu ainda alimento essa criatura
mesmo que ela não queira estar aqui.

Sara.
*Julio Ribeiro, A Carne.

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Contraponto.

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