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Mostrando postagens de Agosto, 2017

Sobre Parar

Esse estado assombroso que me toma.
Pareço enebriado
entorpecida
É tanto medo
incerteza
desmazelo
que me deixo levar.

Pedi em uma certa manhã
para me deixarem ir,
mas o segundo me mostrou que
meu lugar é na repetição
linha de produção
colonização
dos afetos

Estranhar é preciso,
mas não importa o que digo
é muito fácil cair na repetição
normatização
da vida.

Estar consciente o tempo todo
me faz duvidar da existência dos meus sentimentos
Lógica dicotômica
não me abandona.

Jogo palavras na tela
como quem semeia a terra,
mas não vejo brotar a planta
nem acompanho o crescimento.
Só vejo semente sempre
que abro meus olhos.

Às vezes procuro parar e observar o mundo
um pássaro que abre as asas
um pequizeiro florindo.
Só pra lembrar que o mundo continua
quando eu paro.

Sara.

Poema da Meia Noite.

Ah que mistério sereno É ficar pelos cantos rabiscando o futuro. Eu já quis entender o mundo Hoje prefiro entender por que as categorias que eu uso Não o explicam. “Ah o tempo passa e eu penso demais” Eu sei o que eu sou Já me descrevo bem Tenho um grande vocabulário Quem dera eu fosse seco E pudesse colocar a secura no meu coração A gentileza sempre me trai E permaneço refém das regras. Eu já quis inverter o mundo Pra deixar de ser profundo Tenho sentimentos intensos São úteis, mas Não cabem nas pessoas. Eu sou de um lugar distante Desses que não se encontra em mapas. Venho de um lugar comum Reservado para pessoas que sobrevivem. Já não me enxergo tão diferente Reconheço a diversidade no mundo, Mas percebo mais coisas que nos igualam
do que as que nos diferencia. Tenho vivido uma solidão secreta, Mas notei que ela é conjunta E que no fundo As linhas que regem as pessoas Não suportam o emaranhado Que fazemos delas.

Sara.
*Música Hotel, Banda Sabonetes.

Da Raiva que Sinto do Mundo.

É tanto barulho ao meu redor
que já não consigo discernir
o que sentir.
Eu posso continuar me enganando
e fingindo que não sinto.
Eu gostaria de estar a vontade
para falar,
mas as pessoas não estão preparadas
para que certas coisas sejam ditas.
Eu sempre quero proteger o mundo
do meu furor.
Há muita raiva reprimida em mim.
Imagine-se em uma densa nuvem cinzenta
e perceba que você não consegue toca-la.
Seu corpo a atravessa, mas ela resiste
e não se desfaz.
Saiba que essa nuvem vem de você,
você a produz.
E não consegue para-la
ela te acompanha.
Esse é o sentimento.
Temos levado uma existência simbiótica
Eu a conheço mais do que deveria.
Ela não é inerente a mim,
somos produtos de uma relação.
Acho que o desfecho da minha nuvem
depende de como quero me relacionar com o mundo.
Eu sou um amontoado de sonhos profundos
Fugindo pelos muros
que crio
com a Raiva que sinto do mundo.

Sara.

Agosto

Ar seco
Vida seca
Lábios secos.

Agosto seco.
Há gosto seco na boca.
Lábios rachados
pernas cinzentas
céu azulado
tempo sedento.

sombra disputada,
vegetação esticada
folhas secas ao chão
Alto crepitar de fogo
queimando mato no cerrado.

sol a tino na janela
logo cedo pela manhã
A noite é fria, o ar rarefeito
Pouca umidade, grandes efeitos.

Porém, é a secura que faz a chuva ser boa e desejável
Que faz a gente sentir cheiro de gente.
Que lembra que somos mais água que gente.
Agosto também tem paina no chão
Poeira de montão
Agosto é único
é passageiro
é memorável.

Sara.

fonte:https://jardinismo.wordpress.com/
Paineira, árvore.
Paina, lã produzida após a frutificação da paineira.