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Ponto de Partida.

Era tarde da noite, ela acordou e foi a cozinha beber um copo de água.
A garganta seca, o corpo cansado, a mente inquieta.
Sabia que precisava decidir, mas os pensamentos se misturavam e transformavam sua mente em um caos.
Foi até a janela, sentou-se e como todas as noites, tornou a observar a lua.
Não há motivos para fazer isso, esse hábito já está se tornando um ritual, ela pensava.
Todas as noites em que a lua surgia, ela observava, sem razão, simplesmente porque era legal ficar olhando a lua apresentar-se a cada noite em diferentes formas.
Essa noite algo a perturbava, algo que seu Pai havia lhe dito.
Certo dia quando conversavam, seu Pai lhe disse que nenhum ser humano conseguiria viver isolado, afastado de relacionamentos e das pessoas, e que para um ermitão, era extremamente trabalhoso ter de se afastar das pessoas, que isso demandava tempo e determinação.
Enquanto escutava aquelas palavras ela pensava, se ele soubesse que é isso que planejo para minha vida,
e de repente veio um temor do fundo da alma, uma angustia que a perseguia desde aquele dia.
Prefiro acreditar que estarei fazendo o melhor para todos que me rodeiam, já não estabeleço relacionamentos duradouros para que não haja sofrimento quando eu partir. Eu sinto que é este o meu caminho, preciso me desfazer das ambições que o ser humano acalenta e procurar ascender, evoluir enquanto ainda me resta tempo. A morte é silenciosa, não se anuncia previamente. Eu tenho receio em deixar aqueles que amo, mas já estou me afastando aos poucos, para que não sintam a minha partida. 
 Ela sabia que a decisão já estava tomada há muito tempo e que nada mais a impedia de partir.
Um dia a questionaram se não havia deixado alguém, em algum lugar, e então ela se deu conta de que nunca houve aquele alguém que prendesse seu espírito, a ponto dela não fugir da gaiola. Não havia dúvidas, se houvesse encontrado o amante de pássaros, jamais teria partido. Desde pequena sentia que algo lhe faltava, algo que só outro alguém preencheria, mas ao crescer descobriu que o amor é uma prisão de portas abertas, e que nada impede que você saia, a não ser você mesmo.
As linhas do destino novamente se cruzariam e teceriam um tecido sem igual neste mundo, porque o destino não segue um caminho, ele é como o vento que tudo permeia e em nada repousa.
Deitou-se deveria descansar a viagem logo começaria e estar de corpo são era necessário, a mente já se aquietava, pouco tempo lhe restava, tudo preparado, era só uma questão de tempo para que o sol nascesse.
Não importava onde ela estivesse, ela sabia que a lua sempre estaria lá no céu, e isso a confortava, não precisava de mais nada. As nuvens estavam rosadas essa manhã, e o sol lentamente nascia no horizonte, da janela do ônibus ela refletia que a vida era boa e que seu caminho seria longo, mas muito recompensador.
Aquele que em nada crer,
nada suporta, mas o que ao menos crê em si mesmo até a fúria dos ventos o teme.

Sara.

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