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Conto: Distorções em Palavras~~

Quando começou? Ele não sabe. Foi de repente como se ele não tivesse percebido. Pegou um livro que estava jogado em cima de sua cama, o trouxe para perto dos olhos, e a palavra do título se mexia. Ele piscou duas vezes a fim de livrar-se da ilusão, tornou a olhar e a palavra ainda estava ondulando~~~~~~. Abriu o livro, primeira página, as frases se mexiam e ondulavam como a água do mar. Fechou-o depressa e jogou o livro na cama. Ele se sentou no chão do quarto, fechou os olhos. Assim, na escuridão ele nada via, mas sabia que não podia ficar de olhos fechados para sempre. A janela estava aberta e o vento trazia o cheiro da terra molhada pela chuva que caía. De repente esse cheiro trouxe uma lembrança de outro dia, de outra chuva.
Era setembro quando começou, ele acordou cedo, tomou café com leite e açúcar e foi pegar o ônibus para ir à faculdade. Entrou no ônibus, sentou, colocou o fone de ouvido...Tão fácil perceber que sorte escolheu você e você cego nem nota. Quando tudo ainda é nada, quando o dia é madrugada você gastou sua cota... Ele tentou memorizar o que deveria fazer naquele dia. Olhou pela janela do ônibus e o mundo lá fora, ondulava~~~~~~, piscou duas vezes e olhou de novo, ainda estava ondulando~~~, prédios, casas, pessoas ondulando, o ônibus ainda estava parado. Ele fechou os olhos, talvez alguém tinha colocado drogas no pingado, e dormiu. A parada da faculdade, já estava chegando, ele não tinha olhado pela janela, mas o ônibus estava quase vazio e a sua parada era última, então era bom dar o sinal pra descer. A porta abriu, ele desceu de cabeça baixa, estava chovendo fraco e o cheiro de terra molhada chegou às suas narinas. Levantou a cabeça e o prédio da faculdade estava cor de rosa, ``alguém de péssimo gosto``, ele pensava. No caminho, os carros do estacionamento estavam derretendo, mas não havia fogo, o medo começava  dominá-lo. Entrou no prédio e as pessoas, bem as pessoas estavam ondulando~~~~~como balões infláveis. Ele entrou na sala, sentou e abaixou a cabeça, só aí neste momento, ele notou que o chão estava laranja, depressa ele levantou a cabeça e as paredes também estavam laranja,`` como assim pintam o prédio de uma dia para o outro com cores tão horríveis``, ele pensava. O professor entrou na sala e desatou a falar, e ondulando aquele homem, era uma mistura de verde com amarelo, óculos e tênis. Ele olhou a sua volta, todos os alunos estavam de amarelo e verde, só ele que não estava. De repente o teto, o chão, a sala inteira ondulava em uma mistura que distorcia todas as imagens a volta dele, fundindo pessoas e carteiras e teto e quadro. Escuridão, Ele abriu os olhos e estava em seu quarto. Desde aquele dia as alucinações nunca mais regressaram, e Ele teve que aprender a viver com as ondas e cores que o cercavam. Ele não sabe se deve contar  a alguém, já se passaram meses e as alucinações continuam, cada vezes mais fortes. Talvez fosse a hora de parar de pesquisar na internet sobre esquizofrenia e tentar procurar um médico, ou não, ele não quer ser taxado de louco, ainda não, ainda é cedo...

Sara.

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Picasso.


Sara.

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*Música: "Provável Canção de Amor para Estimada Natália", Banda Mulamba.

Contraponto.

Foi quando um contraponto aconteceu...           Meu andar altivo encontrou seu andar ensimesmado Meu olhar furtivo encontrou seu olhar doce. Minhas longas conversas encontraram suas perguntas profundas e certeiras. Foi quando eu vi a idade da minha alma Ao me deparar com a idade da sua. Foi nas nossas conversas inteligentes que vi os nossos interesses em comum. Foi quando você segurou minha mão, que eu percebi o tamanho do meu passo. Assim que você se mostrou confusa eu vi nascer a certeza da impermanência entre nós. Nós somos um contraponto, Que ora se encontra, ora se distancia. Mas seu sorriso terno E meu olhar amoroso se misturam Quando a gente se olha no começo do dia. Minha alta exposição encontrou seu mistério. Minha mão encontrou seu cabelo E sua boca a minha orelha E foi amor à primeira vista entre eles. Mas também foi onde você não me prometeu a eternidade E eu aceitei a transitoriedade
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