Pular para o conteúdo principal

Another.

Ela se levantou no horário de sempre,  ainda de pijamas, escovou os dentes e  seguia para a cozinha, para talvez tomar um copo de leite.  Quando passou pela sala, se deu conta de sua presença. Ela estava sentada na poltrona de frente para a TV. Ela a olhava, ela estava vestida com um sobretudo cinza e com botas escuras, o cabelo preso em um rabo de cavalo como o que a outra gostava de usar. Parecia que iria sair em um dia de chuva.  Talvez parar e perguntar o porquê daquilo, mas invés disto seguiu para a cozinha. Abriu a geladeira, pegou a caixa de leite, despejou sobre o copo, colocou uma sopa de açúcar e o preencheu com café, um legítimo pingado, como ela gostava. O tomou de uma vez só, precisava acordar. Respirou fundo, deixou o copo sobre a pia, voltou para a sala, hora de enfrentar a alucinação visual. Sentou-se na poltrona contrária à dela. Quis começar a falar, ir direto ao ponto, mas era difícil saber por onde começar. “O que você quer?” talvez fosse um começo. Deixá-la começar também é outro começo. As perguntas  já começavam  a corroer-me.  Encará-la não parecia um começo. Ela falou:
-Você deve estar se perguntando o que faço aqui?
Eu sempre odiei esses diálogos, sempre me pareceram tão sem sentido. Eu ainda estava em silêncio.
-Não vim te fazer mal algum. Não sou quem você pensa que sou.
-Então quem é você?
-Você não compreenderá mesmo que eu te explique.
-Por que você está aqui?
-Curiosidade.
Essa não era a resposta que eu queria ouvir.
-Então você vem de sei lá onde e senta-se em minha sala por mera curiosidade?
Isso me gerou  indignação ”Quem ela pensa que é?”
-Eu queria te conhecer, não encontrei outra forma de fazer isso. Apenas preferi ir direto ao ponto.
-Você poderia ser mais criativa.
Eu a estava julgando.
-Talvez me seguir, acompanhar minha rotina de longe, como em um experimento, uma investigação.
Eu só podia estar assistindo muitos filmes policiais. Parecia absurda aquela situação.
-Não se preocupe, não vou demorar aqui. Meu prazo é um ciclo circadiano.
-E o que você pretende?
Já estava me cansando de perguntar aquilo.
-Te seguir me pareceu uma boa ideia.
-Você é meu futuro?
-Não. Venho de outra terra.
Pareceria ridículo se tivesse vindo de outra pessoa, se a que estivesse na minha frente não fosse uma cópia, uma estranha cópia de mim.
-Não te revelarei muitas informações, pois a minha pesquisa precisa de sigilo.
-Você acha que com essa conversa de filme de ficção científica, não vai me dizer nada, você está enganada.
-O que é  “filme de ficção científica”?
Eu só pude rir, ela parecia uma piada. Que espécie de terra é essa em que há teletransporte, mas não existe filme de ficção científica?
-Você tem algum documento? Algo para provar sua existência ou a dessa “outra terra”?
-Não.
Ela me incomodava profundamente, a ponto de eu esquecer que já estava atrasada para ir à universidade.
-Você me cansa, não colabora, não diz nada de útil, estou achando que estou em  algum reality.
-Eu lhe asseguro que não é o que sugere.
Aquelas frases curtas estão me deixando com mais raiva dessa cópia fajuta. Vou ver se não estou ficando louca. Levantei-me depressa e me aproximei dela e disse:
-Vou tocá-la.
-Não sei se deve. Isto nunca foi feito antes, talvez a minha matéria não seja estável como a sua.
-Não me importo.
Apertei seu nariz, suas bochechas pareciam flácidas. Puxei seu cabelo.
De repente o vazio. Ambas sumiram. O ciclo circadiano havia terminado na outra terra. A primeira havia perdido o seu dia de trabalho, a segunda levava o trabalho para casa. 


Sara.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Deixa

Deixa vir esse cabelo no rosto
essas lágrimas guardadas
essas palavras não ditas
que te entopem.

Deixa,
Deixa nascer um espaço entre n-ó-s.
para que alguém possa respirar
depois de uma crise de choro.

Deixa,
Deixa o tempo andar devagar
e te olhar
para ver como é que você está se fazendo
se moldando, se construindo.

Deixa,
Deixa o silêncio surgir sorrateiro
trazendo a tona o barulho
que antes estava aqui

Deixa,
Deixa a sua vontade dizer firme que te incomoda o desejo
O desejo de um outro alguém
Deixa
Deixa a gente ganhar espaço,
alçar voos distantes.

Deixa,
Deixa eu pousar um instante
para recuperar o fôlego
Depois do esforço
de tentar te fazer apaixonar...

Deixa,
Deixa o espaço se fazer entre nós
e quando ele tiver se instalado
a gente olha.

Sara.

Soberana.

A gota que ferve na palma da mão.
O abraço apertado dançante.
O beijo, o cheiro
o sorriso gigante.
Quem é você
que chegou nesse instante?

Os olhos castanhos-verdes me fitam
e pedem de mim um apreço.
Eu reluto, mas me entrego
pois permaneço.

O laço que prende
a obrigação que chama
o meio sorriso de canto presente.

Um nós abrupto,
ininterrupto
desconcertante

Houve um atropelamento,
mas estou gostando deste asfalto.
Eu ganhei um beijo no asfalto*

Eu tenho uma mala comigo
Ela é pesada
Nada impede que não a machuque.

Confusão é uma palavra presente.
Desconcerto, cuidado, carinho,
preocupação.
Mas e se?
Se ela voltar?
Se ele voltar?
Você machucará?
Não há respostas prontas
para futuros prováveis.
Mas pode haver?
O que fazer?

Acalma, apressa, aperta o passo.
Ela acalma a minha pressa?*
Ela apressa a minha calma.

Sara.

*Livro: "O Beijo no Asfalto", Nelson Rodrigues.
*Música: "Provável Canção de Amor para Estimada Natália", Banda Mulamba.

Galhos

Era como um sonho
que eu não conseguia distinguir da realidade.
Aquela estrutura imponente
emanava de mim
e eu era incapaz de subir.
Mesmo sabendo da impossibilidade da queda
era insuportável a ideia de escalar e pular dela.
O que me deixava sem chão?
De onde vinha esse medo?

Era como uma nuvem que tocava o chão
e eu não sabia como aquilo era possível,
mesmo estando diante de mim.

Foi como se chovesse ao contrário
a água brotava do chão em pequenas gotas e subia,
mesmo que eu quisesse saber,
 tudo era tão surreal,
que meu desejo de morte sucumbia ante aquela visão.

Foi como dizer adeus e continuar ali presente,
vendo os resultados da despedida emergirem.
Eu contava os minutos para acordar
estava acostumada demais com a realidade tórrida
que me cercava,
mas um desejo não espera por permissão.

Foi da estrutura que surgiram novos caminhos,
eram como galhos de metal
que avançavam pelo ar.
Era mais do que minha imaginação
era um instinto de sobrevivência.
E eu não tive medo de subir,
não d…