Pular para o conteúdo principal

Sobre ombros cansados...

Sempre achou estranho ter ombros caídos,
principalmente porque o direito era mais caído que o esquerdo.
Os dias se passavam, já não saía de casa,
não desejava ver os amigos,
não queria levantar da cama para ir ao trabalho.
Seus planos pareciam metas inalcançáveis.
A rosa que florescia na esquina da sua rua
já não era tão bonita para ser observada.
A família o procurava, os amigos também,
mas desligar o telefone já havia virado rotina
para não ser incomodado.
Às vezes, em lugares muito cheios imaginava o silêncio
e desejava estar sozinho.
Já ouvia no trabalho comentários sobre como estava distante
e abatido.
Ignorava, prazer não era uma palavra que fazia sentido
no seu vocabulário. Queria desistir,
imaginava sumir, não deixar rastros, apagar sua existência.
Sentia um peso sempre ao caminhar, perder compromissos
já não importava, sair de casa havia se tornado um martírio.
Até o dia em que enxergou no espelho, a razão.
Ele não tinha olhos, não sabia se estava vivo.
Apenas o sugava, largo, negro, pesado.
Não sabia como retirá-lo, não o havia notado crescer.
Era como uma presença ausente se fazendo sentir o tempo inteiro
sem necessariamente se mostrar.
Seus dentes fincados, sugando algo que ele de pouco possuir
já não sentia falta.
A criatura não incomodava, apenas pesava sobre ele
como um casaco que não se pode desfazer,
sempre jogado sobre seus ombros, sugando...
sua existência.
Não temeu ao enxergá-lo, estranhou, mas algo dizia que também se
acostumaria a ser devorado por aquela estranha criatura
que dele se apoderava.

Continua...

Sara.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sentidos.

Bonitas criaturas
escondem suas almas pelo avesso
Bonitas criaturas
vivem na cidade onde envelheço.

Saindo das minhas muitas ruínas
Eu sinto o enjoo mesclado ao medo
Saindo de mim eu sinto
que desfaleço.

Em todos os meus horizontes possíveis
existe alguém que caminha ao meu lado
Ando me perguntando se o que o vejo
não é minha sombra projetada sobre o chão que piso.

Das fantasias que crio poucas
expressam meu real desejo,
talvez porque ele não exista,
talvez porque eu não o mereço.

Se eu continuar caminhando
chegarei a algum lugar?
Sabe os versos que eu escrevo?
Tem alguém que nunca os lê.

O mundo parece a sombra de uma lona de circo
projetada no chão.
Eu pareço alguém que olha de fora
pois não pode pagar a entrada.

Se eu descer um pouco mais
poderei me amar um dia?
Mas e se eu me perder?
Quem lembrará do meu sorriso torto?
Sinto que a curva se aproxima novamente,
será que vou derrapar?
será que vou seguir?

Sara.

Medo.

Quando um ser humano
sente medo de outro ser humano,
esse medo é aprendido.

É difícil olhar nos olhos das pessoas
Que vivem na margem da sociedade,
Quando você não vive.

É difícil saber que ele ou ela não tem o que comer,
onde dormir, alguém pra dar um abraço.
Dói saber que quando ele se aproxima de mim pra pedir dinheiro
Eu sinto medo.

Eu sei que ele ou ela é mais do que a rua.
Eles não vieram do nada,
não nasceram na rua.
Mas diversas circunstâncias os levaram a rua.

Eu sei que ele percebe meu medo
E que isso o entristece.
É duro saber que o outro sente medo de você.
Quando você sabe que esse medo não tem razão.

Eu sei que essa pessoa tem uma história,
tem pessoas que a ama,
tem pessoas que a deixaram,
tem pessoas que cuidam dela.

Eu sei que somos de mundos distintos
Mas me nego a aceitar esse medo.
Eu preciso parar de sentir medo
E enxerga-lo como alguém
que é muito mais do que a sua condição de vida.

Ele e Ela são muito mais do que a rua mostra.
E eu quero conversar com eles e con…

Nos Reencontrando.

Por duas vezes nos despedimos,
por  duas vezes nos reencontramos.
Eu não quero pensar no depois,
no que virá a seguir.
Eu quero viver esse momento
como se fosse o último.

E se...
não sei,
desisto de saber.
Eu já te escrevi tantos poemas.
Sei que não leu um terço deles.
Talvez seja aterrorizante
saber o que eu sinto por você.
Talvez você apenas se esqueça.
Já não me importa
Agora eu conheço o caminho
e só eu posso desistir de caminhar.

Nos últimos dias eu deixei
de habitar um certo lugar
Um tão conhecido
tão arredio
tão meu lugar.
Um espaço para o vazio
em que eu me guardava.
Era um poço de segurança,
mas também um buraco no isolamento.
Ali não soprava vento
nem assobio ressoava.
Ali eu não cantava,
mas então você chegou
e me disse que eu podia sair.
Era só o que eu esperava ouvir,
mas ninguém havia chegado tão perto
a ponto de me dizer.

O mundo é tão novo como jamais foi igual.
Muito depende de mim,
agora muito mais do que antes.

Sara.














Encontro do Rio Potengí com o mar - Natal RN
Font…