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Revoada

E se foi.
Veio mesmo sem querer
e tinha pouco pra dizer,
mas até que gostou de estar ali.
Perto, tão perto que não sabia
que ela era tão sapiente
quanto um sabiá que pousa
na sua janela e canta sobre sua vida.

Era alguém que sentia o peso do mundo
e tinha um medo profundo
de se abandonar.

Certa vez olhou uma revoada de pássaros
e sentiu vontade de chorar.
Era tão pequena
de coração simples
e palavras complexas.

Ela era tudo que queria,
mas não sabia
que podia se amar.

Era tão benevolente
que sentia o coração ardente
com vontade de ajudar.
Duvidava se naquelas entranhas rígidas
que a vida teimou em lhe dar
não tinha egoísmo, desamor,
dor e vontade de queimar.

Era tantas que já não sentia
que podia se juntar
tinha feito arremesso
de si mesmo sobre o mar.

Ela se foi.
Estava voando
e não sabia voltar.

Sara.


Fonte: https://brisanordestina.wordpress.com/tag/revoadas/
Postagens recentes

Do alto da minha Contradição.

Como é possível voar e continuar presa?
Essa foi a minha pergunta a
afirmação dela de que eu deveria me acostumar com meu voo.

Certas ambiguidades que eu convivo
me fazem sentir solidão.
Ora estou em dois mundos que se odeiam,
mas eu sou o denominador comum.

Vez ou outra sinto vontade de desistir
há sempre um representante de cada mundo
a me cobrar a escolha.

Eu não escolhi estar nessa cruzada
assim como outros
somos adeptos da fé de que o mundo é complexo.

Seria doloroso ter que escolher me anular em um dos mundos.
às vezes parece que esse será meu destino.

Não é pelo fato de eu ser uma contradição
que signifique que eu não sou humano.
Essa é a minha maior prova.

Sabedorias ancestrais me dizem
que a vida não reserva mares calmos e brisa leve
na minha vida.
Eu já vivi um furacão,
sei como aprender a resistir.

Sara.

Funduras.

Não posso me render a esse desejo descabido. Tantas vezes roubado de mim, Tantas vezes levado a embalar meu próprio sono. Vou me desfazendo pouco a pouco E dando lugar a minha imensa obsessão Um falso vazio se instala Um desejo ardente arrasa minhas chances de viver só. Processo automatizado, Engendrado no meu corpo A fuga tão alcançável O medo de pisar em falso. Mas eu já pisei. Pisar em falso é o que mais faço E para fingir que não há espaço Eu preencho de sonho Todas as funduras que me cercam. Mas elas estão em mim. Eu tenho funduras que não são preenchíveis. Mas insisto em enfiar sonhos como se fosse máquina desejante. Desejante de sonhos. É difícil perceber que meus vazios não podem ser preenchidos É difícil aceitar. É mais fácil se iludir E fingir Que posso lidar com as funduras do meu olhar.

Sara. Fonte: https://fotos.habitissimo.com.br/foto/fundura-11-metros_1043273

Sobre Parar

Esse estado assombroso que me toma.
Pareço enebriado
entorpecida
É tanto medo
incerteza
desmazelo
que me deixo levar.

Pedi em uma certa manhã
para me deixarem ir,
mas o segundo me mostrou que
meu lugar é na repetição
linha de produção
colonização
dos afetos

Estranhar é preciso,
mas não importa o que digo
é muito fácil cair na repetição
normatização
da vida.

Estar consciente o tempo todo
me faz duvidar da existência dos meus sentimentos
Lógica dicotômica
não me abandona.

Jogo palavras na tela
como quem semeia a terra,
mas não vejo brotar a planta
nem acompanho o crescimento.
Só vejo semente sempre
que abro meus olhos.

Às vezes procuro parar e observar o mundo
um pássaro que abre as asas
um pequizeiro florindo.
Só pra lembrar que o mundo continua
quando eu paro.

Sara.

Poema da Meia Noite.

Ah que mistério sereno É ficar pelos cantos rabiscando o futuro. Eu já quis entender o mundo Hoje prefiro entender por que as categorias que eu uso Não o explicam. “Ah o tempo passa e eu penso demais” Eu sei o que eu sou Já me descrevo bem Tenho um grande vocabulário Quem dera eu fosse seco E pudesse colocar a secura no meu coração A gentileza sempre me trai E permaneço refém das regras. Eu já quis inverter o mundo Pra deixar de ser profundo Tenho sentimentos intensos São úteis, mas Não cabem nas pessoas. Eu sou de um lugar distante Desses que não se encontra em mapas. Venho de um lugar comum Reservado para pessoas que sobrevivem. Já não me enxergo tão diferente Reconheço a diversidade no mundo, Mas percebo mais coisas que nos igualam
do que as que nos diferencia. Tenho vivido uma solidão secreta, Mas notei que ela é conjunta E que no fundo As linhas que regem as pessoas Não suportam o emaranhado Que fazemos delas.

Sara.
*Música Hotel, Banda Sabonetes.

Da Raiva que Sinto do Mundo.

É tanto barulho ao meu redor
que já não consigo discernir
o que sentir.
Eu posso continuar me enganando
e fingindo que não sinto.
Eu gostaria de estar a vontade
para falar,
mas as pessoas não estão preparadas
para que certas coisas sejam ditas.
Eu sempre quero proteger o mundo
do meu furor.
Há muita raiva reprimida em mim.
Imagine-se em uma densa nuvem cinzenta
e perceba que você não consegue toca-la.
Seu corpo a atravessa, mas ela resiste
e não se desfaz.
Saiba que essa nuvem vem de você,
você a produz.
E não consegue para-la
ela te acompanha.
Esse é o sentimento.
Temos levado uma existência simbiótica
Eu a conheço mais do que deveria.
Ela não é inerente a mim,
somos produtos de uma relação.
Acho que o desfecho da minha nuvem
depende de como quero me relacionar com o mundo.
Eu sou um amontoado de sonhos profundos
Fugindo pelos muros
que crio
com a Raiva que sinto do mundo.

Sara.

Agosto

Ar seco
Vida seca
Lábios secos.

Agosto seco.
Há gosto seco na boca.
Lábios rachados
pernas cinzentas
céu azulado
tempo sedento.

sombra disputada,
vegetação esticada
folhas secas ao chão
Alto crepitar de fogo
queimando mato no cerrado.

sol a tino na janela
logo cedo pela manhã
A noite é fria, o ar rarefeito
Pouca umidade, grandes efeitos.

Porém, é a secura que faz a chuva ser boa e desejável
Que faz a gente sentir cheiro de gente.
Que lembra que somos mais água que gente.
Agosto também tem paina no chão
Poeira de montão
Agosto é único
é passageiro
é memorável.

Sara.

fonte:https://jardinismo.wordpress.com/
Paineira, árvore.
Paina, lã produzida após a frutificação da paineira.