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Vazante.

Eu quero fazer uma cartografia desse sentimento.
É um rio vazante que se estende por mim.
É despretensioso,
mas sem tardar seu peso me joga ao chão.
Grandes suspiros me tomam
e eu lamento cair,
mais uma vez,
sobre esse sentimento.

Eu sinto demais
e de tanto sentir
eu canso.

É um tecido remendado que sempre rasga
e eu novamente costuro
porque é o único que tenho
não dá para me livrar desse sentimento.

Caída ao chão eu reflito
chegando às mesmas conclusões
eu minto
de que não permitirei que se repita.

É cruel se ver refém de um rio vazante,
que não se importa com as barragens,
ele sempre rompe.

Dedicada a divagar
eu aceito a velocidade dessa água
eu aceito a violência dessa água
eu aceito a existência dessa água
em uma tentativa tosca de deixa-la correr
de mim.

Sara.
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Seja Água.

Eu ouço um grito.
Um grito de dor.
Um grito que diz que eu não caibo no seu mundo.
Essa voz geme.
Porque sou uma inconsistência,
uma incoerência no seu mundo.
Perfeito mundo.
Pra quem?

Eu amo essa voz,
mas eu sou a diferença.
Eu sou um ponto fora da curva
que questiona o seu mundo.

Eu não pedi por isso
eu não escolhi a sua dor,
mas eu escolhi me amar
e isso afetou o seu amor
pelo seu mundo.

Cristo também era a diferença
Ele era amor
e também afetou o mundo
que o rejeitou.
Ainda assim ele amou.

Me permita embalar seu choro
em meu longo abraço.
Nada mais tenho a oferecer.
Eu sou pobre,
a grandeza reside nos homens e mulheres feitos.
Eu sou constante mudança
Se permita ser também.

Seja água.
água que transforma.
Ora líquida, ora sólida
ora nuvem, ora chuva,
ora quente, ora fria,
ora fraca, ora forte
ora desejada, ora incômoda
ora poça, ora rio,
ora mar,
ora gente.

Sara.

O Tempo Virá.

O tempo virá
e vai me dizer
não vou aguentar
pois posso ceder.

Não devo apenas
sobreviver.

O tempo virá
e vai me dizer
não vou aguentar
pois posso errar.

Eu devo e posso
viver.

O tempo virá
e vai me dizer
não vou aguentar
não posso suportar.

O tempo virá
e vai me dizer
que posso errar
ele vai me olhar.

O tempo virá
e vai me dizer
posso suportar
ele vai me acolher.

O tempo virá.

Sara.

Escarlate.

Estou sempre me entregando,
a vivacidade habita em mim.
Ainda assim a recusa é sempre a primeira opção.
Como sobreviverá esse coração escarlate?
Ele se deitaria a noite
mas ao amanhecer do dia
ninguém assumiria
aquela cor viva.
Toda a responsabilidade desse sentimento
que é minha.
Toda a vivacidade desse sentimento
que é minha.
Toda a entrega e desejo
que é minha.
Como viverá esse coração escarlate?
Fadado a grandes pesos
excessos
entorpecido pelas palavras
fabricante de poemas
O que restará desse coração escarlate?
Todos os sentimentos
que o abatem,
Todo o envolvimento interrompido
perdido
usado
pausado no tempo,
pois em breves momentos outro desejo é forjado.
O que será desse coração escarlate?

Sara.

Safra

Ando sonhando com você entrando por aquela porta,
me pedindo pra ficar em seu abraço dançante, mas então eu acordo e percebo mundos tão distantes com caminhos paralelos, mas intransponíveis. Há muita terra para se arar as sementes precisam ser jogadas ao chão o cal e o adubo Por que já estou sonhando com o fruto? Há muita chuva ainda por cair e 60 dias de sol. Há ainda muita terra pra se arar, mas o tempo foi sensato nos deu o momento certo e nós aproveitamos bem preenchendo cada lacuna daquelas almas rachadas. De repente um sentimento visceral me toma então suspiro Mas eu sei e sinto que estamos na terra certa. Independente da safra uma ou outra, ambas serão boas Porque aqui, aqui a terra é profunda e há espaço para raiz independente da semente que for jogada.
Sara.

Meu Sal.

Eu sinto um gosto de sal na boca.
Um gosto sempre presente
que me lembra dos ares que já entraram
por essa boca.
Eu sempre busquei uma salvação
idealizava um sentimento profundo
uma conexão
que me libertaria,
mas ela nunca chegou.
Eu uso o sabor doce da vida
para combater o gosto de sal
que trago na boca.
Esse combate está fadado ao fracasso.
Eu tenho uma necessidade de permanência
que criei na tentativa de suprir a falta,
mas foi um erro
que agora me machuca.
Eu tenho um desentendimento profundo
com a minha existência
e questiono meu passado
o acuso
de me fazer feridas intangíveis.
Eu sou minha salvação.
Eu preciso aceitar o sal na minha boca
para que o doce seja seu complemento
e não seu inimigo.
Eu preciso aceitar minha história
para deixar ir
todos os sentimentos
que me amarram ao chão.
Eu consigo ver o caminho.

Sara.


Feito Pipa solta no Verão...

De onde vem todo esse sentimento
que se acumula em mim?
O peso sobre o meu estômago
me diz que um mundo vive aqui.

Sabe todos os versos que deixo escapar?
Eles dizem da enorme insegurança que tenho.
Sabe o silêncio que propus?
Ele fala que preciso escutar
Ainda que meu mundo esteja sedento...

Eu quero escutar o que meu silêncio diz
ainda, mais uma vez, vivo me contradizendo.
E deixo a deriva sentimentos opostos.
Eles te confundem?
Eles me confundem.

De onde vem todo esse sentimento?
De caminhos amigdalares cerebrais?
Uma explicação possível.
De uma pessoa incrível?
Outra explicação possível.

De onde vem meus sentimentos?
Da vida que levo ao vento.
Eu sou pipa solta no verão.
Ando perdida da minha linha
seguindo a trajetória do vento
Essa sensação é boa.
Também sei que não será eterna
Ora dessas eu engarrancho
em um telhado,
fico presa a um poste qualquer
ou sou traçada em pleno ar
por uma linha de outra pipa razante...

Às vezes parece que não voo sozinha...
Às vezes eu olho para o lad…