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Da Raiva que Sinto do Mundo.

É tanto barulho ao meu redor
que já não consigo discernir
o que sentir.
Eu posso continuar me enganando
e fingindo que não sinto.
Eu gostaria de estar a vontade
para falar,
mas as pessoas não estão preparadas
para que certas coisas sejam ditas.
Eu sempre quero proteger o mundo
do meu furor.
Há muita raiva reprimida em mim.
Imagine-se em uma densa nuvem cinzenta
e perceba que você não consegue toca-la.
Seu corpo a atravessa, mas ela resiste
e não se desfaz.
Saiba que essa nuvem vem de você,
você a produz.
E não consegue para-la
ela te acompanha.
Esse é o sentimento.
Temos levado uma existência simbiótica
Eu a conheço mais do que deveria.
Ela não é inerente a mim,
somos produtos de uma relação.
Acho que o desfecho da minha nuvem
depende de como quero me relacionar com o mundo.
Eu sou um amontoado de sonhos profundos
Fugindo pelos muros
que crio
com a Raiva que sinto do mundo.

Sara.

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Agosto

Ar seco
Vida seca
Lábios secos.

Agosto seco.
Há gosto seco na boca.
Lábios rachados
pernas cinzentas
céu azulado
tempo sedento.

sombra disputada,
vegetação esticada
folhas secas ao chão
Alto crepitar de fogo
queimando mato no cerrado.

sol a tino na janela
logo cedo pela manhã
A noite é fria, o ar rarefeito
Pouca umidade, grandes efeitos.

Porém, é a secura que faz a chuva ser boa e desejável
Que faz a gente sentir cheiro de gente.
Que lembra que somos mais água que gente.
Agosto também tem paina no chão
Poeira de montão
Agosto é único
é passageiro
é memorável.

Sara.

fonte:https://jardinismo.wordpress.com/
Paineira, árvore.
Paina, lã produzida após a frutificação da paineira.

As Ondas.

Assim por acaso eu perco Sentimentos Pessoas Ações. As coisas escapam das minhas mãos. Eu te sinto imensa  fragilidade sobre mim. A insegurança que como as sombras da noite tomam o mundo também me toma. Eu que sinto tanto que tão intensamente desmancho por outros fragmentos de sentimentos. Sei o que me perturba ao adormecer e já não posso conter esses subterfúgios. Apenas aceito que não controlo essa onda. Estou coberta, Pouco respiro, Sinto o peso da água pressionando meu corpo. Ela entra pelas minhas narinas e a tosse me escapa
Em uma tentativa vã de me fazer respirar.
Sara. Fonte:https://dosurf.com.br/2016/10/14/conheca-os-oito-fatores-que-pioram-as-ondas-na-costa-brasileira/

Ciclos.

De repente um contraponto se mostra
De um lado uma cabeça entorpecida de sonhos
e anseios pelo futuro
Do outro lado outra cabeça entorpecida pela vida diária.
Os anseios foram substituídos pela rotina.
Existe um contínuo entre esses dois estados
a vida se encarrega de executá-lo.
As estradas que um ser humano percorre,
não são únicas.
Muitos já percorreram e muitos outros percorrerão.
O destino é conhecido,
mas a rota pode ser desviada.
O que o contraponto nos revela?
Que a vida tem ciclos
mas que nem todas as pessoas
alcançarão esses ciclos.
Qual é o primeiro? Quais são os seguintes?
Somente vivendo uma vida humana para saber.

Sara.

Alimento.

"Não podia comer tinha um fastio desolador,
cortado por desejos violentos de coisas salgadas"*

Eu tenho alimentado uma criatura,
dessas que não se deve falar,
nem tocar,
chegar perto
Dessas que a gente deve fingir que não existe
para que ela desapareça por completo.

Eu toquei essa criatura
a peguei no colo
me deitei com ela na cama.
Adormeci com ela no pensamento
até que chegou o momento em que percebi
o que eu tinha feito.

Eu alimentei uma criatura.
E sempre que algo é alimentado
ele cresce
e toma proporções que não conseguimos lidar.

Ela não podia ficar
e quando partiu me deixou um vazio desolador.
Fui tocada por uma criatura
e não tenho como retroceder.

Há que se dizer que a culpa é minha
que eu procurei essa criatura que não me contive
em vê-la ali tão perto e tão longe de mim.

Eu ainda alimento essa criatura
mesmo que ela não queira estar aqui.

Sara.
*Julio Ribeiro, A Carne.

Gota em Tecido.

Foi como se uma gota de tinta vermelho vivo caísse em um pano branco.
A cada gota eu me manchava mais
e o tecido ia se inundando de uma forma
que eu não conseguia conter.
A cada gota que você despejava eu me inundava.
Tão pouco tempo
tão poucas gotas
todo um tecido manchado.
Já me perguntei por que sinto tanto,
por que tão subitamente me afeto por completo
me deixo ser tomada
e quando me percebo já estou inundada.
Posso tecer teorias
tentar me explicar nelas,
mas é difícil mudar
me afetando tanto
me machuco
a intensidade desmedida me acusa
diz que a ingenuidade me habita,
mais além, diz que eu me entrego.
Eu devo fugir?
Eu não quero
eu não nego.
Mas ficar é o que mais faço
e me perder é muito fácil.
Eu não queria jogar mais um tecido fora
porque a tinta não foi o suficiente
eu exijo do mundo
o que ele não pode me dar.
Como fazer parar
minha fábrica de oceanos?

Sara.


















Fonte: http://www.janeblundellart.com/watercolour-triads.html
Indanthrone Blue PB60 (Daniel Smith)






Meios poemas.

Há dias que venho escrevendo
meios poemas,
inacabados,
nesses dias as horas são esparsas
e eu pouco paro para respirar.
Nesses dias escrevo poemas pela metade.
Sei que existe algo para ser escrito,
mas resisto em libertá-lo.
Tenho escrito poemas meio,
meio que não dizem nada,
meio
inacabada escrevo.
Talvez eu precise de inspiração,
aflição
angústia.
Talvez eu precise parar
e deixar meus poemas livres
tenho aprendido a conter
aquilo que nunca contive.
Eu não tenho escrito poemas.

Sara.